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2 - ESCRITORES DO PINHEIROS de L a Z

Paulo Catunda - A ESTÁTUA


Em 1950, Engole Sapo, ou Sr. Levy, francês, viúvo, magro, alto e muito gentil, era funcionário administrativo do Setor de Vendas Óleos, da firma Grãos. Sílvio, o Gerente de Vendas, não tinha escrúpulos em fazê-lo atender aos brados do Diretor, Sr. Jacob e a enviá-lo para comunicar as más notícias: os mensageiros sempre levam parte da culpa. Não por acaso, Silvio estava sempre na rua quando a informação ia desagradar. E Engole Sapo era o para-raios de todos esporros.

“Como é que você agüenta isso, engolir tanto sapo?”, perguntaram uma vez... E ele ingenuamente explicou:

“Eu engulo os sapos, deixo dentro de minha bochecha e depois os dissolvo antes de pôr para dentro, assim eles não me fazem mal.”

Nunca mais teve outro nome senão Engole Sapo. Na verdade, pensava nos personagens da Grãos como figuras de história em quadrinhos: Sr. Jacob,o Pafúncio, a D.na Eunice, a D.ona Marocas. Ela mandava e ele descontava na primeira vítima que encontrasse, sempre ele, Levy, o Engole Sapo. Como ela tinha alcançado tanta projeção na empresa? Dizia-se que era a secretária responsável pelo contato de todos funcionários com a Diretoria por ser surda, desligava inteiramente quando o assunto não interessava e com isso, isolava os Diretores de maiores problemas. Mais: deixá-la decidir quem poderia ser admitido pela Diretoria, tornou-a a peça chave de tudo. Engole Sapo lembrava-se das festas da Diretoria, aquelas esposas dos Diretores, Jecas, gordinhas, vestido preto comprido, enfrentando a D. Eunice, de roupa clara, um chapéu grande e enfeitado e saia nos joelhos. Sua vestimenta as embaraçava tanto que, vindas de uma vida simples na Polônia, não sabiam como agir ante uma mulher tão distinta e de joelhos que encantavam tanto seus maridos...

Tempo de mudança na empresa. Algumas coisas precisavam ser ajeitadas para retomar o rumo certo, gastos talvez mais altos do que devia, gente acomodada, feudos construídos, privilégios... A providência seria fazer uma auditoria, mas essa nunca era a alternativa escolhida. Preferia-se demitir, admitir, mudar pessoas, enviar gerentes do sul para o norte, viver um período dramático mas, cheio de encanto para os Diretores. Era também a hora do ajuste de contas: punição para os pequenos delitos.

D. Eunice via os Diretores entrando na sala às carreiras para o banheiro, coitados, certamente seriam artes da próstata. Certo dia, no fim da hora de almoço, ela estava aprendendo com Engole Sapo um jogo simples, quem tirasse a última peça perdia. Ele ganhava sempre e mais uma vez ele movimentou as peças de forma a vencer e riu dela numa hora infeliz, Sr. Jacob atravessava a sala aos peidos.

D. Eunice não se conformou, velho maluco, demitiu Engole Sapo que estava há tanto tempo na empresa que já lhe era difícil distingui-lo das paredes da sala. Viúvo, solitário, indefeso numa terra estranha. O que seria dele?

Engole Sapo juntou suas economias, somou com a indenização que lhe coube e comprou um sítio no Morumbi. Era um lugar alto, além dos primeiros promontórios que escondiam a cidade. Comprou uma carroça, pois não gostava de jeep e os outros veículos não enfrentavam aquelas picadas. Tinha um burrico e um cão enorme, dinamarquês que não suportou a vida selvagem, mutucas e carrapatos entre outras pragas. Morreu depois de dois meses para grande desgosto do dono. Ele gostava de agradar aquele comprido focinho, o cão tinha quase o tamanho do burrico. De manhã, um chacareiro ia levar leite embalado em garrafa de litro com rolha de espiga de milho, leite tirado poucas horas antes. Certa vez trouxe um bezerro, Engole Sapo olhou o bicho, agradou seu focinho, e quis comprá-lo. Dispunha de pouco dinheiro, mas após uma disputa árdua conseguiu o que queria.

Agora estava tudo bem: ele se sentia rico porque comia diariamente carne de frango, coisa que, na cidade, só rico poderia fazer. Sua casa era simples, mas ele levantava cedo e sentava-se de chapelão nos degraus da escala da entrada, tomava sol, agradava o focinho do bezerro e considerava as tarefas do dia: tratar das galinhas, misturar o esterco com terra para vendê-los em sacos aos sitiantes e olhar aquela vista calada, das árvores como estátuas imóveis do Morumbi.

O bezerro cresceu andando atrás de Engole Sapo como cão, dormindo no abrigo embaixo do terraço e saudando-o pelas manhãs. Cresceu e virou a vaca, Mimosa, inconsolável quando seu dono saía. Grãos era uma lembrança longínqua, como passar pelo purgatório antes de enfrentar a vida.

Um de seus desejos era o de enfrentar uma subida íngreme para ter uma visão privilegiada da região. Certa manhã, levantou cedo, pegou sua navalha e passou-a muitas vezes no couro negro do afiador. Gostava dela no ponto certo, era um preciosista água quente no rosto, pincel com sabão de tubinho, muitas pinceladas até esperar que os fios se impregnassem de água aumentando seu volume e facilitando o corte. Pensou involuntariamente na representação da morte, uma figura negra com foice, comum nas propagandas farmacêuticas. A velocidade da ponta da foice era maior do que a no cabo, alguma coisa parecida ele fazia para aumentar a eficiência do movimento de sua navalha. Pronto! Apenas um ou dois cortinhos estancados com um pouco da espuma do sabão.

E pôs-se a caminho, cansou mais do que imaginava. Sentiu alguma coisa romper-se dentro dele e, ainda assim, gozou a vista: sob um céu de chumbo havia um mar de árvores a se espalhar por onde a vista alcançava, árvores imóveis, silenciosas, como para ouvir melhor o pio de algum falcão, o canto de algum sabiá. Felizmente a vaca também viera:

“Sabe, Mimosa, um dia fugirei por esse horizonte, nem as árvores terão mãos para me segurar”.

Tossiu, sentiu cansaço:

“Não fique aflita, vai ser bom para mim, voltarei para minha mulher”.

Nada mais se disseram, dobrou-se sobre seu dorso e desceram o morro. Foi posto deitado na porta do galinheiro para livrar os bichos de sua prisão quando o chumbo do céu se rompe em raios e as árvores se agitam e gemem. Distingue entre elas uma estátua negra, sua conhecida. Abre o guarda-chuva, resolve morrer bem protegidinho, sonha com aquele mar que agora lhe afoga, imagina algas nos olhos e boca, engole seu último sapo, digere-o na bochecha e penetra no desconhecido.