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1 - ESCRITORES DO PINHEIROS de A a J

José Altino Machado - É NOIVADO…

É NOIVADO…

Autor: Acadêmico José Altino Machado

O rádio-relógio o despertou precisamente às 6 horas, ele se levantou sonolento, rumou ao banheiro e, ainda de chinelos e pijama, foi bocejar e se espreguiçar no pequeno terraço da frente do apartamento, no último dos doze andares do único edifício construído naquela quadra residencial, nos altos morros do Sumaré, voltado para a larga avenida homônima, um vale entre os espigões daquele bairro e o das Perdizes.

Lá fez breve ginástica e ficou a respirar o revigorante ar fresco matinal e a ver a paisagem que se descortinava serena, a descansar os olhos no verde das copas arbóreas, a relaxar o corpo e a repousar o espírito nos telhados vermelhos do casario das proximidades, na silhueta acinzentada dos prédios à distância e, sobretudo, no céu primaveril, vazio de nuvens e pleno de azul, inteiramente azul e límpido, lavado que fora pela forte chuva noturna daquele início de outubro. No terraço permaneceu, a olhar para a rua, para os arredores, para o longe, para o alto, para o céu. O seu céu, pensava ele, céu só dele e de mais ninguém, pois tinha a convicção de que, naquele instante, não havia outro alguém a espiar a abóbada celeste. Só ele.

Só ele olhava o céu dos anjos e santos, céu puro e imaculado, céu adorável, a emoldurar o horizonte, que o sol principiava a dourar, com raios ainda tímidos da madrugada a se esvair ante a presença crescente do dia. Céu por muitos insuspeitado, da Cidade Grande a despertar para outra jornada febril, em que os habitantes lá de baixo, quais formigas quando avistados cá de cima, timbram em ignorar, eis que só olham para o chão, para o asfalto e para a frente, imersos nos inúmeros problemas jamais olhares altos que, esses sim, lhes revelariam o céu, tão doce e todo azul.

Ele não. Recém septuagenário, forte ainda fisicamente, com laivos de juventude, mal entrado na ociosidade da aposentação compulsória, após décadas de trabalhos se não árduos, pelo menos desgastantes pela monotonia da repetição na repartição, ele enviuvara, há três anos, de uma colega, após trinta anos de casamento feliz. Na ocasião houve quem dissesse ter-se casado por interesse, pois ela era feiosa mas ganhava o dobro do que ele percebia, e a soma dos salários lhe permitiu obter financiamento para adquirir e pagar todas as parcelas do imóvel em que sempre moraram. Ele, porém, a achava graciosa e a amou até o final o único senão foi a falta de filho, sempre desejado, jamais evitado, mas que teimou em não nascer.

Ele vivia só, vida modesta e reclusa, relacionando-se apenas com dois ex-colegas, da igual faixa etária, também viúvos e jubilados, um dos quais seu cunhado, irmão da falecida.

Sua distração maior consistia em se postar no terracinho, logo após o café-com-leite, pão e manteiga, passando as manhãs a mirar e a curtir o agradável panorama, o despertar da Metrópole, até que o burburinho lhe quebrasse o sossego, com o ronronar roufenho e enjooso, inerente à dinâmica citadina.

Após o almoço, no restaurante por quilo da esquina, retornava para cochilar e ler o jornal depois andava a pé no bairro, eventualmente ia ao cinema ou se encontrava com os amigos, para jogar dominó ou sinuca. À noite, já de pijama, tomava apenas um lanche e ficava em frente à televisão até as 23 horas, quando ia dormir, pois acostumara-se, desde a mocidade, a levantar-se bem cedo, acordado pelo rádio-relógio.

Aquela, todavia, era manhã de sábado, dia de escasso movimento e ele se foi deixando demorar no terraço, indolente, a gozar o “far niente” geral, a olhar vagabundamente, a olhar e a olhar. Sem nuvem, o azul do céu lhe parecia mais acentuado, um azul inusual. Após mais de hora e meia de espia, em que presenciou cenas diversificadas na vizinhança, algumas hilárias, outras nem tanto, banhou-se, vestiu-se, barbeou-se e, na volta, apanhou o binóculo na estante da sala, binóculo que fora de seu pai, conservado como relíquia sentou-se numa cadeira de lona, apoiou os cotovelos no parapeito e se pos a perscrutar os longes.

Nada lhe chamou atenção à direita nem à esquerda, mas no centro e bem distantes, focalizou duas mínimas manchas brancas como algodão, dois pontinhos claros, aparentemente dois fiapos de nuvens a flutuarem mansamente no espaço, quais níveos flocos de neve, tangidos pelo soprar do vento. À medida em que se foram acercando, as formas se definiram e, no visor do binóculo, distinguiu duas aves, talvez duas pombas ou duas possíveis cegonhas, quiçá num imaginário vôo de entrega de um par de gêmeos, entrega pela qual tanto ansiara, mas que lhe fora negada...

Daí a pouco notou serem garças, a voar emparelhadas, ritmadas no bater-asas, coordenadas no planeio com elas abertas e estáticas, quais elegantes bailarinas, delgadas, pescoços compridos terminados em longos bicos amarelos, pés recolhidos, tudo em perfeita harmonia aerodinâmica, a esvoaçar no “pas de deux” do balé celestial, bem ensaiado, simétrico, sedutor e, para ele, musicado, pois seus ouvidos captavam supostos e silenciosos sons sibilantes, zumbidos produzidos pelo deslizar das bailarinas siderais.

Encantado com a sutileza da cena em movimento, seduzido pela dança aérea das lindas aves, ele acenou várias vezes, em gestos largos, como se as aplaudisse e elas responderam aos acenos, batendo as asas. Ele acenava, elas batiam as asas ele parava de acenar, elas planavam, asas paradas, como se obedecessem à batuta condutiva de um maestro a lhes dirigir os passos e compassos, no palco do firmamento.

Após algum tempo, em que circunvoaram o prédio por mais de uma vez, bem próximas, talvez a homenageá-lo, afastaram-se, presumivelmente em demanda de algum lago piscoso. Ele as manteve enfocadas na unicidade binocular, até tornarem a ser dois pontinhos brancos, duas mínimas manchinhas, dois pingos de neve na imensidão azul e sumirem, deixando gravadas suas imagens na retina e na memória daquele tristonho homem solitário, restrito a seu mundo apoucado, o pequenino e tão simples apartamento, homem cujo coração envelhecido acalentaram, embora por instantes fugazes, todavia marcantes.

Tanto assim que, no dia imediato, à mesma hora, lá estava ele de plantão, desperto, lépido e reanimado, café e banho tomados, barba feita, cabelos penteados, de camisa esporte, calça, meias e sapatos, todo paramentado, no aguardo de suas novas companheirinhas volantes, binóculo apontado para frente, a buscá-las no horizonte e, para jûbilo seu, tudo se repetiu como na véspera. Novamente quando ambas partiram, após variadas evoluções de artístico balé, ele mergulhou na melancolia da solidão e sentiu saudades. Saudades das gráceis garças.

Dada a constância dos vôos diários, ele se foi afeiçoando aos pássaros, e a convivência gerou recíproca amizade. Elas demonstravam afeição por ele que, por sua vez, ficara avezado às aves, plenas de gracilidade, aves que se inseriram em seu cotidiano e passaram a fazer parte de sua vida matutina. Aguardadas com ansiedade, eram as graças de suas manhãs, enriqueciam a beleza ambiental, complementando-a com as próprias belezas.

Num dia chuvoso, elas não apareceram e ele, embora compreendendo o fato, ficou angustiado. O relógio ficou preguiçoso, o dia custava a fluir, a tristeza se fez presente, ele sentiu-se como se tivesse levado o fora da namorada, no caso a especial dupla espacial, de que se enamorara.

Três manhãs decorreram até ressurgirem, trazendo em seus mimosos voares o céu esplendíssimo, o sol radiante, a alegria juvenil àquele septuagenário encanecido e só que, da abertura de seu apartamento para a vida, o terracinho, nelas se havia projetado, com elas se identificara e através delas voava alto, mundo a fora, solto e livre em sua imaginação, ele que jamais realizara um sonho, jamais ultrapassara os limites urbanos de São Paulo, sequer conhecera o mar, um de seus anseios de menino não concretizados. Em sua fantasia, elas o transportavam nas asas, para vôos infindos. Eram seus símbolos libertários.

Na véspera do retorno das garças, como se o pressentisse, pois o tempo melhorara, ele comprou dois peixinhos no supermercado e, ao avistá-las, tirou-os da geladeira e os colocou no parapeito. Com a maior naturalidade, ambas pousaram perto dele, apanharam os peixes com o bico e permaneceram imóveis a olhá-lo fixamente, como se aguardassem o que veio a acontecer: com delicadeza ele as acarinhou, afagando-lhes afetuosamente as cabecinhas e coçando-lhes amigavelmente a plumagem do peito. Só então elas partiram. Uma vez por semana ele lhes dava peixes para comer e acariciava suas aves de estimação, suas pequeninas irmãs caçulas, como as considerava.

Certo domingo, os dois amigos o levaram para almoçar no magnífico e centenário Esporte Clube Pinheiros, por ele ainda desconhecido. Após o almoço ficaram a papear descontraídos e a passear nos jardins floridos, aproximando-se do pequeno lago lá existente sentaram-se num dos bancos e ficaram a ver as águas mansas, os peixes numerosos, os cinco canhões-de-água a esguicharem jatos em belos arcos, o farto arvoredo ao redor, as margens ornamentadas por conjuntos arbustivos floridos, e os sócios circunstantes, a maioria crianças. Avistaram, também, duas garças pousadas no alto de uma das árvores que se debruçavam sobre o lago.

Indagado, um dos funcionários encarregados da zeladoria do bucólico recanto, informou serem aquelas garças freqüentes e que, de vez em quando, em vôo rasante, apanhavam um ou outro peixe para comer. Ambas integravam o conjunto aquático tinham lá o seu habitat.

Os três amigos conversavam há alguns minutos, quando a dupla lá no topo da árvore alçou vôo, contornou o lago e veio pousar, tranqüilamente, a apenas um metro do banco por eles ocupado. Eram as mesmas garças e o haviam reconhecido. Os amigos ficaram a observa-las em silêncio, até que um deles falou, jocosamente:

- Veja! As garças nos ignoram, a mim e a ele. Olham apenas para você e lhe piscam com um olho só. Isto é flerte.

- Somos velhos conhecidos. Diariamente elas voam à volta do meu terraço e lhes aceno. Não sabia que provinham deste lago. Certamente querem peixe. São minhas queridas amiguinhas, ele respondeu.

- Pois parecem mais que amigas, tornou a falar, o primeiro. Estão de namoro descarado com você.

- Pra mim, acrescentou maliciosamente o outro amigo, é mais do que namoro. Elas estão de branco, vestidas de noivas. É noivado!