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Tema - DIA DO PAI - Cármen Rocha 21 /08/08
Meu pai, morto há bons anos, nunca me decepcionou, sabe? Esta condição de morto, não importa! É um mero detalhe, porque para mim ele está vivo e bem vivo. São questões de ponto de vista e é por isso eu vou pedir a você que não insista.
Veja bem, se eu o vejo a toda hora que preciso, e felizmente batemos papinhos deliciosos, por que eu me importaria com pequenos detalhes?
Aliás, acho sinceramente que você tem um pouco de inveja. Não percebe o que é felicidade? Você não vê seu pai há tempos! Ele viaja daqui para acolá e não lhe dá a mínima, e você fica aí, obssecado pelo pai dos outros!
Veja bem a diferença: o meu dá boa-noite todas as noites e ainda me dá ótimos conselhos. Nunca me sinto desamparado. Não importa, portanto, aquela suave fumacinha que se desprende dele quando desaparece. São convenções. Não precisa ficar arrepiado. Meras convenções.
Outro dia, seu dia, eu quis lhe fazer uma surpresa, trazendo-lhe seus charutos preferidos, os Havana, que comprei a bom preço! Eu me lembrei que ele os adorava e, então, eu os colocaria em ótimo lugar no escritório, para que os visse logo. Na caixa original tinham seis charutos perfumados. E nesse dia iria chegar mais cedo em casa para preparar tudo e apreciar sua alegria.
Seu horário de visita era à meianoite em ponto. Arrumei tudo, arranjei um bom cinzeiro, e como tivesse trabalhado muito, resolvi cochilar um pouco. Perto da hora, eu despertaria para lhe dar um grande abraço, mesmo que fosse um abraço sutil.
Cochilei e acordei com vozes alegres na sala ao lado. Corri para lá, estranhando um pouco tal barulho.
Entrei! Vejo então, espantado, que cinco cavalheiros e meu pai, em plena alegria, desfrutam de todos os charutos da caixa! Desesperado,não me contendo, gritei: -- Mas, são do meu pai! Com o grito insano, todos cavalheiros desapareceram! Só me restaram seis fumaçinhas malcheirosas!
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