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8/ 2008
tema - AS PATINHAS DA LACRAIA coord. Cármen Rocha
Bem-me-quer, mal me-quer...
Bem - me - quer, mal -me- quer, bem - me quer. Mal - me- quer, mal -me -quer, ma l-me- quer ! bem - me - quer! Que bom, ele me quer bem. Bem - me- quer! E Como um mantra, eram repetidas infinitamente as palavras: bem -me - quer, mal - me - quer,! Bem - me- quer ! bem -me- quer! Mal - me queeer! E assim, desfolhando mal-me-queres, às vezes aos gritos,outras aos prantos, passavam-se os dias de Mocinha, como era chamada a filha mais nova da família de seu Moraes, professor biólogo e orientador de um bairro de classe média, na periferia de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Este palavreado todo, dito assim de maneira descompassada , começou a ser ouvido quando a menina foi internada no sanatório particular da cidade para descansar e se recuperar do impacto causado por um noivado desfeito, dois dias antes do casamento!
Vestido de noiva confeccionado por dona Júlia tida como a melhor costureira não só do bairro, mas de toda aquela região já que à sua procura chegavam pessoas até das mais abastadas, vindas das cidades vizinhas . Os doces, nem se fala, tudo encomendado na doceira do bairro, e preparados no dia jurava a quituteira, rindo e balançando as gorduras de corpo, resultado das experiências com os seus bolos e docinhos .
Mocinha, menina meiga , caseira, prendada , como se dizia na vizinhança. Cantava no coro da igreja, ajudava na organização do culto evangélico que assistia todos os domingos e dizem até, vejam só, que estava ela mesma bordando a camisola do dia porque a desejava mais recatada do que aquelas que via nas lojas da cidade. Não saia só e era mesmo meio tímida. Talvez pelo pouco estudo, ou por ter pouca leitura, não se sentia `a vontade quando o assunto fugia dos bordados, da culinária e mesmo das novelas. E foi então, que dois dias antes da data marcada para o casório o noivo de Mocinha reuniu a família porque queria fazer uma revelação. E fez!
-- Não caso mais com Mocinha, revelou o noivo. Mocinha não é virgem! Não é virgem,! repetia ele.
--Mocinha? Não pode ser! Mas quem foi que fez uma coisa destas? Era a pergunta que se repetia quase que em uníssono entre as famílias dos noivos que, pela proximidade do enlace matrimonial e pela longa convivência no bairro, já tinham se fundido em uma só.
-- Mas fui eu mesmo, dizia o noivo, abrindo as mãos e levantando os ombros, disso não tenho dúvida. E é por isto que não caso mais com Mocinha!
O turbilhão dos acontecimentos, o redemoinho de acusações que acompanham estes momentos não se podem descrever. Mochinha enlouqueceu.
Ver-me! Ver-me ! O pai de Mocinha não tinha outra palavra para o acontecido e misturando comédia à tragédia que abatera a sua família procurava, na sua cabeça, encaixar o ex- noivo numa das várias espécies de artrópodes miriápodes que conhecia e ensinava nas aulas de biologia.
Naquele mesmo dia a menina, que não tinha mais noção de realidade, foi colocada na casa de repouso. Passava os dias desfolhando mal -me -queres, às vezes tão furiosamente que estraçalhava não só as flores como também qualquer ser vivo que estivesse por acaso entre elas. Nos raros e breves momentos de consciência, lembrava-se, ainda, das miçangas com as quais bordava a camisola do dia.
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