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Isaías Edson Sidney - O JORNAL NACIONAL

BLOG DO MACACO - 25.10.2006

O Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, à custa de um longo (mais de trinta anos) trabalho de construção diária, tornou-se uma espécie de instituição nacional.

Na época da ditadura, era praticamente o órgão oficial dos generais de plantão. E mesmo depois da democratização, muitos presidentes faziam questão de lançar seus grandes projetos ou planos em horários que pudessem contar com sua cobertura.

Faz parte, hoje, sem dúvida nenhuma, do imaginário popular. Creio não haver mais nenhuma cidade, vilarejo ou povoado que não se ligue no Jornal Nacional ou não obtenha algum eco do que ele veicula.

Com tal força, é lógico que se torne polêmico. E tenha uma grande responsabilidade diante do povo desse País imenso.

Não vamos julgar aspectos éticos, morais, políticos do Jornal Nacional. Nem contestar sua força, sua capacidade de mobilização e a influência que ele exerce. Ele existe e ponto. E pôde, por existir durante tanto temp, fazer grandes besteiras, veicular reportagens de repercussão, mexer com os brios do povo ou cometer gafes. E mais: não vamos nem discutir o fato de que pendeu sempre para os poderosos ou, mais explícito ainda, que é um órgão conservador, de tendências direitistas, refletindo os princípios dos donos da Rede Globo.

É um direito que todo órgão de divulgação e imprensa tem: o de defender seus princípios, sejam eles quais forem. Só não têm o direito de omitir isso de seus ouvintes, leitores, espectadores. E a Rede Globo deixou sempre claras as suas posições: só não as percebe quem não quer.

Mas não é isso o que me preocupa. Em sua nova (nem tão nova assim) fase, com o casal William Bonner e Fátima Bernardes, o Jornal Nacional ganhou leveza, simpatia, um ar de cumplicidade com o telespectador, um ar família, ou seja, de forma discreta, mas muito clara, optou de vez para um tipo de jornalismo médio, sem polêmicas, levemente emotivo e voltado para as preocupações comezinhas do cidadão comum. Com isso, ganhou uma linguagem mais direta, mais olho no olho com o espectador, um jornalismo límpido, em que até as tragédias trazem, quando veiculadas, a indignação emocionada, mas contida, sem grandes arroubos, sem grandes análises, sem grandes preocupações que não sejam a de passar a mensagem: gente, o mundo é assim apesar disso, a vida é bela. Veio à minha mente o filme idiota do Begnini, sim. Talvez seja exagero, mas acho que é por aí o que sinto quando assisto ao Jornal Nacional, desde que o simpático casal o assumiu.

Mas tudo isso eram impressões. Como não sou especialista em televisão, apenas um espectador um pouco mais atento, mas só um pouco, pensava ser implicância minha. Afinal, é tão simpático aquele casal, com aquela cumplicidade contagiante, aquele ar tão família, tão angelical...

Aparências! Com nos enganam essas danadinhas!

E então, leio a crônica do professor Laurindo Leal Filho, na Carta Capital: no texto, ele descreve uma reunião comandada pelo editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner. E revela que Bonner compara o espectador-padrão do JN a Homer, o simpático mas obtuso pai de família da série Simpsons.

Puxa! Então, eu e milhões de telespectadores somos todos meros Simpsons! Só podemos compreender o mundo através das notícias, se elas vierem bem mastigadinhas, bem explicadinhas pelos repórteres da Globo! E nem tudo temos condição de entender: é preciso alguém filtrar, escolher, separar notícias boas das desagradáveis, evitar aquelas que não perturbem nossa digestão, ao jantar, e não provoquem qualquer comoção no seio de nossas famílias!

Confesso que isso me perturbou muito. Sempre desconfio das pessoas que desconfiam da inteligência do povo. Porque o povo, as platéias, os espectadores de qualquer arte, de qualquer emissão coletiva podem ser incultos, podem às vezes nem saber ler, podem não compreender palavras difíceis ou mensagens complexas, mas não podem nunca ter desdenhada a sua percepção da vida e das coisas. Capacidade de ler e escrever, articulação de idéias e todos os demais marcadores de cultura fartamente utilizados para excluir e ditar preconceitos nunca foram, não são e nunca serão índices de inteligência. E o povo sempre tem aquele seu jeito de ver, de interpretar, de duvidar ou aceitar, mas com a sua sabedoria, aquela sabedoria provinda não de bancos escolares, mas do sofrimento, das agruras do dia a dia, da experiência vivida e acumulada por muitos, muitos anos.

E duvidar da inteligência da platéia (sabe-o bem qualquer ator, qualquer artista), isso sim, é um índice de estupidez de qualquer comunicador social.

Portanto, a única conclusão a que posso chegar é: o editor-chefe do Jornal Nacional, ao nivelar por baixo as matérias desse noticioso e nos taxar a todos de Homer Simpson, está na verdade refletindo o que ele mesmo deve ser. Não somos nós os ignorantes sem capacidade de compreender o mundo através das notícias, de refletir sobre nós mesmos através daquilo que nos chega pelos meios de comunicação, mas ele é quem não tem o tirocínio de um verdadeiro comunicador, ele, o senhor William Bonner.

Ou melhor, o senhor William Homer, sob cuja responsabilidade, infelizmente, está uma instituição como o Jornal Nacional.