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OS QUE MATAM JOÕES E LIANAS TAMBÉM MORREM!
A BARBÁRIE ESTÁ SOLTA Grupo de Contistas de São Paulo - 14.2.2007
Nas ruas do Rio de Janeiro e de Bagdá.
A barbárie está solta.
Na Palestina e nas areias da África, que agoniza na miséria e na AIDS.
A barbárie está solta. Só não estão soltos os dólares, os reais, os euros que podiam evitar as guerras, melhorar a condição de vida das favelas do Rio e das cidades da África. Que podiam ser empregados para salvar vidas em Gaza ou em milhares de outros lugares do mundo onde se mata, se esfola, se destrói em nome de quê? De nada... Porque a vida humana não vale absolutamente nada.
Não vou falar da dor dos pais do menino pintassilgo (conforme a crônica da Urda Alice Krueger, de Florinópolis), porque não deve haver dor maior que perder um filho, principalmente de forma bárbara.
Não vou falar do clamor nacional para diminuir a idade penal de 18 para 16 anos, porque isso é uma estupidez (daqui a pouco vamos diminuir para 14, para 12... e onde iremos parar?).
Não vou falar da necessidade de se buscarem novos valores para uma sociedade que parece ter batido no fundo do poço da estupidez, da ganância e da falta de respeito por si mesma, pelos outros e pelo meio ambiente em que vivemos.
Não vou falar da hipocrisia de uma classe média que fuma, cheira, se pica e come drogas proibidas, alimentando com seu vício traficantes que matam, esfolam e destroem por uma parcela dos dólares de magnatas do tráfico internacional que deitam e rolam de rir de todos nós em suas mansões na Califórnia.
Não vou falar do que os governos e governantes precisam ou não fazer para conter a tal onda de violência que nós alimentamos, com nossos valores, com nossos costumes e com nossa letargia.
Queria falar de uma coisa só: do tanto de dinheiro que anda por aí, arrecadado por centenas, talvez milhares de organizações voltadas para menores abandonados, para menores carentes, para menores de todo tipo, até mesmo aqueles que matam, esfolam e destroem.
Outro dia, num programa de entrevistas na televisão, desses que passam já depois que quase todo mundo está dormindo desses programas que privilegiam as chamadas elites, senhores empresários e madames empertigadas em vestidos caríssimos e penteados que custam vários salários mínimos a cada escovadela em salões de luxo pois é, num desses programas de entrevistas de gente de bem, ou ouvi de uma dessas madames que ia passar o carnaval em Punta Del Leste, com os amigos... Até aí, tudo bem, podem as madames e seus lulus passarem o carnaval ou qualquer outra data onde lhes aprouver. Mas o que me espantou foi a cara de pau da tal madame em pedir doações para sua organização de amparo ao menor abandonado, ao menor carente que tenha câncer ou sei o que fosse.
E eu pensei: quanto real, quanto dólar, quanto euro arrecadados em nome das criancinhas carentes a passear em Punta Del Leste ou em cruzeiros de luxo e riqueza ou a desfilar pelas passarelas da moda, Roma, Nova Iorque, Paris, Londres!
E eu pensei: se todo o dinheiro arrecadado para as crianças carentes desse nosso País fosse realmente empregado para as crianças carentes desse nosso País, não haveria mais crianças carentes nesse nosso pobre País! É dinheiro que sai do nosso bolso, por via direta, quando fazemos doações ou por via indireta dos impostos que os governos arrecadam e distribuem entre dezenas, centenas, talvez milhares de organizações voltadas para o amparo de crianças carentes...
E há dezenas, centenas, milhares de crianças carentes a desfilar sua falta de perspectiva, de educação, de comida, de amparo não por passarelas da moda como Roma, Paris e Nova Iorque, mas pelas praças, pélas ruas, pelas vielas imundas de nossas cidades cercadas por favelas dominadas pelo tráfico, pela bandidagem que, esperta, usa essas crianças para cometer seus crimes e ficarem impunes.
Enquanto isso, há um clamor para que haja leis que punam as crianças carentes desse País, Crianças que matam, que esfolam, que destroem, sem perceberem todos os que gritam contras eles que eles fazem isso, sim, porque acuadas por bandidos, pela miséria, pela falta de valores morais, por milhões de motivos, mas que esses menores que matam, esfolam e destroem também são mortos, aos milhares, esfolados pela polícia, por outros menores, pelos traficantes e morrem como pintassilgos que nunca cantaram, presos, destruídos, nos becos, nas favelas, nas ruas... Ou nas guerras sujas que bilhões de dólares financiam em todo o mundo.
Os que matam joões, lianas e marias, nossos filhos e filhas, também morrem. Pela mesma barbárie.
Que, sim, está solta.
Aqui, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade. Ou melhor, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso mundo.
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