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1 – Cármen Rocha - DESTE... E DO OUTRO MUNDO tema –IDEM in VINHOS MILONGAS 08/01/07
A Edgar Alan Poe - cujos poemas nos levam por obscuros caminhos...
Ao anoitecer ela subia em passos trêmulos e medidos, como se esperasse o inusitado. Coração aos saltos! Batia lentamente a meia-noite cruel. E a semi-escuridão fitava o vácuo. Ao se aproximar do final da escadaria, aquele ser agourento, terrível e estranho aparece nos umbrais, passa levemente e se mistura às cortinas, parecendo uma singular silhueta macabra, para pousar na estátua esbranquiçada. O vulto negro. Negro!
Assemelha-se a um pássaro, escuro e fino. E a paz maldita e ferrenha se desfaz no casto abrigo.
Ela alcança o quarto. Acende o incenso e ora. Vem-lhe à memória a figura esmaecida do amado, tão amado, o tempo que se foi... O tempo... As memórias que se foram...
Retira do baú envelhecido tristes figuras amareladas. Leva-as ao peito, beija-as com ardor... Ah! Quantas recordações de noites tão longínquas, do passado ainda tão presente que lágrimas escorrem lentamente, sem ela se dar conta inteiramente.
Então reage, levanta-se, molha o rosto e bate os cabelos espessos e levemente embranquecidos, espalhando-os... para espalhar lembranças... Não, nada é verdade! São loucuras de um passado louco. São apenas quimeras...
Vai para seu canto de sonho. Senta-se em sua poltrona de veludo, leva o fogo à vela, pega seu livro, abre no lugar demarcado e tentando um sorriso, nada mais lembrar... suspira e recomeça a leitura...
Mas seus olhos, seus olhos doridos como que a chamam... e sem forças, lentamente, ela volta-se, ela volta-se... para aquele corredor escurecido e olha ... em cima do alvo umbral uma pena enegrecida.
Eu hei de esquecê-lo! Eu hei de esquecê-lo! - pensa apavorada.
Mas ouve um murmúrio tenebroso – Nun-ca mais...
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