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O BAILE: DUAS HORAS Etore Scola -Isaías E.Sisney

O BAILE: DUAS HORAS DE PURO ENLEVO

17.9.2007

Do fundo da memória, lembro o filme o belo e comovente de Ettore Scola, O Baile, há tantos anos... As cenas, esmaecidas, ainda estão lá, vibrando as músicas, as personagens, a coreografia, tudo... A história dançada de uma Europa se recuperando de cataclismas.

E então, eis que uma produção carioca aporta ao palco do Cultura Artística ressuscitando a magia do filme antigo.

Superprodução, com vinte atores, cinco músicos e não sei mais quantas pessoas envolvidas.

Raramente, assisto a superproduções. Talvez por preconceito meu, dramaturgo que gosta de um bom texto, dito por bons atores, não importa se teatro tradicional ou experimental, sempre desconfiado dos grandes efeitos ditos especiais e da maquinaria exagerada desse tipo de espetáculo. Porém, lá vou eu ao Baile...

E então, a surpresa: produção realmente grandiosa, mas não pelos efeitos do teatrão que geralmente se importa, principalmente da Broadway. Cenário único, nem tão naturalista, nem tão abstrato: suficiente para nos colocar dentro de um salão de baile. Efeitos especiais? Só a tela, ao fundo, que nos remete a um ou outro fato histórico, ou nos mostra um ou outro ângulo dos atores no palco. Figurinos: todos caprichadíssimos, contribuindo para mostrar a evolução dos usos e costumes das várias épocas retratadas. Porque esse baile dura o tempo que vai de Getúlio ao ano 2000.

E a supresa maior: não há diálogos! Sem diálogo, não há dramaturgia! Engano: lá estão todos os matizes dos vários dramas humanos, existenciais e políticos vividos por personagens que se apresentam apenas pelo gestual, pelo figuirino e pela coreografia. Em sucessivos bailes, lá estão o suicídio de Getúlio, o governo de JK., o golpe militar (o único episódio não exatamente dançado, numa saída engenhosa do roteiro e da direção), a c anha pelas diretas, a democratização do País...

E eu me rendo à engenhosidade do roteiro bem adaptado, à delícia dos mil jogos de cenas das personagens, à beleza da coreografia, à graça dos figurinos, à interpretação dos atores, à beleza da música. Não sinto falta de diálogos, porque há drama, e dos bons, nessas duas horas de enlevo, em que sonho e pesadelo se misturam para interpretar um pouco de nossa história recente.

Sim, um belo espetáculo. Que recupera, com beleza e dignidade, as imagens esmaecidas do filme de Scola. Em versão brasileiríssima!

O BAILE

Autor: Jean-Claude Penchenat

Roteiro brasileiro: Valderez Cardoso Gomes

Criação e direção: José Possi Neto

Produção: Tássia Camargo e Guilherme Abrahão

Grande elenco de atores-cantores-bailarinos e músicos.

Teatro Cultura Artística, São Paulo, SP.