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1 - ESCRITORES DO PINHEIROS de A a J

Cleide Marrese - AS MAÇÃS DO PADRE JOSÉ


Padre José, pároco de uma pequena cidade de interior, viu, interessado, parar na frente da Casa Paroquial um carro preto com o brasão da Cúria estampado nas portas. Correu a receber o passageiro que descia pomposo do banco traseiro, o motorista de terno e gravata deu a mão para um religioso de batina, coisa rara de se ver, e de cara fechada.
-Boas Tardes Eminência, falou sorrindo o pároco.
- O senhor precisa me acompanhar.Fecha a igreja e venha logo,pois não tenho tempo a perder, ordenou o visitante de forma grosseira, sem nem ao menos responder ao cumprimento.
-Por que? O que aconteceu?
-O senhor vai perder seus votos!
-Meu Nosso Senhor Jesus Cristo! Eu nunca fiz nada de errado! Acho que há um engano muito grande com a minha pessoa.
-Não há não, é o senhor mesmo.Vamos logo!
-Com todo o respeito Eminência, não largo minha igreja sem saber do que se trata.
-E por favor, não me chame de eminência, eu não sou bispo,nem cardeal.Sou apenas um emissário que vim lhe buscar por conta de suas faltas.
-Que me perdoe o senhor emissário, mas daqui não saio. Se quiser me tirar de minha paróquia vai ter que trazer um mandato judicial e agora, com sua licença, seu emissário, volte para seu carro e já que é moleque de recado fale para quem lhe mandou aqui que venha devidamente munido de provas e da polícia.
Tremendo de raiva o pobre pároco virou as costas e entrou na casa paroquial fechando a porta na cara do tal emissário, que por sua vez entrou no carro que partiu cantando os pneus.
Padre José assim que se viu só rompeu em choro. Por mais que escarafunchasse a memória não achava nada que o pudesse incriminar de ter cometido ato grave. Era querido por todos os paroquianos, era humilde, casto e sua única falta, se é que assim poderia considerar, era gostar de comer até se empanturrar nas festinhas onde sempre era o convidado de honra. Isso, sem contar os velórios, onde segundo os costumes locais, sempre havia mesa farta para os veladores do defunto.

Após a crise de choro acalmou-se, tomou um banho e deitou para se refazer do estresse que a visita lhe causara. Adormeceu. Acordou abruptamente com gritos do lado de fora: Padre José, vem depressa, o prefeito está precisando de extrema unção. Vestindo a roupa às pressas, saiu e soube que seu amigo prefeito havia sido baleado.

Ao chegar ao hospital perguntou ao moribundo se queria confessar. Ao ouvir a confissão quase desmaiou. O prefeito contou que desde os tempos de vereador, adulterou as maçãs das várias macieiras que havia no jardim da casa paroquial, as quais ganhava dele para serem distribuídas para os pobres.Seus dois comparsas faziam furos nas frutas, recheavam com pacotinhos de cocaína e davam um banho de caramelo vermelho e as encaminhava para venda nas portas das escolas.

O esquema rendia muito dinheiro e ele conseguiu se eleger prefeito. Um dia antes a polícia descobriu o esquema e um dos comparsas foi preso e confessou tudo, só que disse que as maçãs eram fornecidas pelo padre, que levava uma comissão das vendas o prefeito lhes dizia isso para aumentar seu lucro. O outro comparsa quando soube da prisão, obrigou o prefeito a lhe dar uma quantia de dinheiro muito grande para fugir.Os dois brigaram e um bandido baleou o outro.

Se esse cara morre estou perdido, pensou o coitado do padre. Assim, implorou para que ele se salvasse. Deus o ouviu e após muita fofoca e sufoco, conseguiu provar sua inocência tanto na cidade quanto na cúria, tendo o prazer de ver o tal “seu emissário” lhe pedir desculpas .