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Cleide Eche - O MISTÉRIO DO QUARTO AZUL


MARÇO: 2.010
Tema: O mistério do quarto azul
Cleide Eche


Janeiro de 1965. João viajava num ônibus de quinta categoria. Seu destino era a casa de sua avó Angélica.Havia esgotado todos seus recursos e esta era a última alternativa que lhe restava. Uma viagem monótona com paisagens inexpressivas. Dormia...Acordava...Dormia...Até que o veículo deu um enorme solavanco e parou. Já era noite e os passageiros foram avisados que não poderiam seguir viagem. Estavam à uma hora e meia da cidade de Mirassol.
João pegou seus poucos pertences e junto com outros corajosos iniciou a caminhada até lá.
Lembrava onde era a casa da avó, embora tivesse saído de lá ainda menino junto com sua mãe. Durante a caminhada pensava nas voltas que o mundo dá. Jamais pensara que voltaria para esse lugar e muito menos na situação que se encontrava. Sem dinheiro, desempregado, desacreditado até da sua namorada. Todos haviam lhe virado as costas...Todos... Mas ele sabia que fizera por merecer. Alcoólatra e fumante de todo tipo de cigarros. Aos trinta anos soubera fazer de sua vida um verdadeiro caos. O pior... Não sentia nenhum arrependimento. Achava normal tudo que estava acontecendo e vinha refugiar-se na casa da avó, porque não tinha outra escapatória. Não fazia idéia como ela o receberia.
Era madrugada quando conseguiu localizar a velha casa da avó. Percebeu que tudo permanecera igual, apesar de tantos anos passados. Parou no portão e exitou...Tão tarde... Com certeza assustaria a anciã se batesse ou tocasse a campainha. Foi entrando, surpreso viu que a porta estava apenas encostada.
Empurrou. Ela rangeu um pouco. Entrou. Tudo estava escuro, mas de uma fresta da porta de um dos quartos passava a luz do luar. Empurrou esta porta também e viu sua avó sentada na cama. A janela escancarada fazia entrar a luz...
-- Vó!... Sussurrou...
-- João?
-- Sim!... Vó sou eu...
-- João, não há luz na casa. Você tem que ligar a chave no registro, mas receio que as lâmpadas estejam queimadas. Você esta cansado, vá dormir no outro quarto e amanhã conversamos.
Realmente ele estava exausto. Tateando foi ao banheiro e depois se jogou no que achou ser a cama e dormiu profundamente.
Dormiu até quase meio dia. A primeira coisa que fez foi procurar a avó.O quarto dela estava vazio e a janela trancada Apenas um grande gato o observava. Na cozinha não tinha cheiro de café, muito menos de comida. A geladeira desligada e vazia. O fogão também. Lembrou das palavras da avó e ligou a chave geral. Ela tinha razão... As lâmpadas todas queimadas. Resolveu se arrumar e sair. Fechou a porta, mas não colocou a chave deixou como a encontrara.
Na rua procurou uma padaria, tomou café com um pãozinho. Não comprou cigarros, nem quis nenhuma bebida. (Tinha que causar boa impressão à avó).
Entrou em uma loja de ferragens e comprou duas lâmpadas. Um senhor que o observava, aproximou-se. Perguntou:- - É recém chegado à cidade? João respondeu afirmativamente. – Esta precisando de emprego? Um pouco indeciso voltou a confirmar. – Sabe ler e escrever? Quase que ofendido disse que sim. – Estamos precisando uma pessoa alfabetizada para trabalhar no Correio. Esta interessado? João mais que depressa, disse sim.—Então venha amanhã conversar comigo. Meu nome é Paulo e trabalho lá enfrente.
João voltou para a casa muito animado, mas a avó não estava.
Colocou as lâmpadas e notou o abandono em que tudo se encontrava. Muito pó. O gato parecia que não comia há dias.O quarto dela, também estava sujo. As paredes azuis desbotadas e a cortina de um tom azul mais escuro afastada. Sobre a mesa da cozinha tinha um álbum velho e desgastado. Abriu e nas primeiras paginas viu fotos de sua avó vestida de noiva, com o avô. Faziam um belo casal, ele sabia o quanto haviam lutado ao chegar ao Brasil como imigrantes. Sua mãe sempre contava essas histórias, sobre o sofrimento as necessidades, mas, sobretudo a integridade do casal, de quem tinha muito orgulho, apesar de pobres. Em outra pagina se viu pequeno, acompanhado da mãe e da avó. Sentiu saudades. E a avó? Nada de aparecer... Comeu um lanche que comprara na padaria e adormeceu. Quando acordou já era madrugada e viu a luz do luar, no quarto dela.
-Vó! Que horas voltou? A senhora não come em casa?
- Não... Como com minhas amigas...
- Ah!... E o gato? Parece faminto...
- Ele come ratos no quintal.Os gatos sobrevivem com mais dignidade que as pessoas.
João ficou sério, meio sem jeito por invadir a privacidade da avó, e por nunca ter escrito uma carta ou dado um telefonema ao longo desses anos.
-Vó... Eu...
- Eu sei, sei tudo. Só não sei, porque você tem se agredido tanto. Sua mãe antes de morrer me escreveu e pediu que eu cuidasse de você, mas eu perdi o endereço e mais tarde quando encontrei você já não morava mais lá. Mas sei da vida desregrada que vem levando.
- A senhora viu no jornal? Ela não respondeu. -Sabe que isso vai levá-lo a morte?
João começou a chorar:- - Minha mãe se me visse morreria de desgosto.
-Sua mãe não pode vê-lo, mas eu estou aqui para ajudá-lo. Deus é poderoso e deu a intuição para você chegar até aqui.
- Vó!... Ofereceram-me emprego no Correio. Acho que vou aceitar.
Passaram-se muitos dias, João não voltara a beber nem a fumar desde que reencontrara sua avó. Ele respeitava o sistema de vida da velha senhora. Somente a encontrava a noite e no seu quarto azul. Batiam longos papos depois ele ia para seu quarto. Às vezes a noite tinha vontade de levantar e ir vê-la dormindo ou acordar cedo e ver a que horas saia. Nunca se sentavam à mesa juntos para comer e tampouco ele acedia a luz do quarto. Ele pensava: Mania de velha, não gosta de claridade. Se chovesse a janela permanecia fechada como fazia durante o dia, antes de sair.
João mudara radicalmente sua vida, era um rapaz muito diferente do que chegara aquela cidade. Ligava para a namorada. Telefonemas interurbanos feitos dentro da sala do Correio, com autorização do senhor Paulo que já estimava como a um pai. Aquele pai que ele nunca conhecera.
Uma noite falou para a avó que sua namorada queria vir de São Paulo para morar com eles, em Mirassol. Ela ficou pensativa e depois pediu que ele abrisse a ultima gaveta da velha cômoda e levantasse um tampo falso. João, surpreso fez o que a avó mandou. Encontrou lá uma pasta, abriu-a e dentro estava a escritura da casa e um documento assinado pela avó e testemunhas. Era seu desejo deixar a casa para seu único neto. Emocionado, mas tímido quis abraçá-la, mas não teve coragem de se aproximar.
Alguns dias depois, estando trabalhando no Correio chegou uma carta toda cheia de selos e carimbos de devolução.(Não havia sido encontrado o destinatário). Curioso olhou o nome e viu o seu e o remetente não era sua avó.
Olhou para o senhor Paulo na outra mesa e disse: -- Que coisa mais curiosa! Mandaram uma carta daqui para mim e esta voltando agora. Ela esta endereçada a minha pessoa. Realmente há algum tempo eu deixei de morar nesse local.
--João!...Você é o neto de Dona Angélica? Veja bem o remetente... Sou eu. Sua avó antes de morrer me pediu para enviar essa carta, ela queria muito vê-lo, mas não deu tempo.
--Como? Minha avó não morreu.O senhor esta enganado...
--Ah! João... Morreu sim e já faz mais de ano. Eu mesmo fui levá-la ao cemitério. Que mundo pequeno...Então você é neto de Dona Angélica? Mas João não ouvira as ultimas palavras de Senhor Paulo, correu para casa. Entrou, olhou para o quarto azul e não viu nada. Tudo estava como havia deixado... Mas bem no fundo do seu coração sentiu uma sensação de bem estar, como jamais havia sentido em sua vida.

Fim