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Gerald Misrahi-VERDADEIRA HIST. DE RAPUNZEL E ...

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE RAPUNZEL E O PRÍNCIPE-GALO

Aos dezoito anos, Rapunzel continuava virgem, uma raridade hoje em dia. Pudera, encarcerada naquela altíssima torre desde os doze, fazia tempo que não tivera contato com outra pessoa que não fosse aquele horrendo anão que a raptara. Olhando pela janela, ela via os bichos da floresta que cercava o local dando livre vazão aos apelos da natureza sem que ela pudesse desfrutar do mesmo. A menos que desse ao anão acesso ao seu cofrinho, reprimindo o grande asco que sentia por ele. Para afastar seus numerosos avanços, descobrira que, ridicularizando seus diminutos atributos, fazia com que esfriasse seu ardor. No início o anão se conformava com esta situação atribuindo-a à pouca idade da moça e ameaçava “Um dia, franguinha, um dia quando você se tornar galinha...” deixando em suspense o que faria.

Quando completou dezoito anos, Rapunzel começou a temer que o seu estratagema perdesse efeito. Deixara o cabelo crescer, sem cortar desde o seu aprisionamento, na esperança de poder, um dia, fazer uma corda que algum potencial salvador usaria para resgatá-la. Contudo o tempo passava e o cabelo crescia devagar. Na melhor das hipóteses, levaria mais trinta anos para chegar ao comprimento necessário. Mas até lá... Enquanto isto, deixava-o fora da janela para não ter que agüentar este peso todo na cabeça e deixar a chuva lavá-lo.

E assim ficava ela a se lamentar até que, um dia, passou por lá um galo da vizinhança. Acontece que este galo era na realidade um príncipe que tinha sido enfeitiçado: de dia era galo e de noite voltava a ser príncipe porém, ao contrário do que acontece neste tipo de história, a fórmula para reverter o feitiço não lhe fôra revelada. Esta situação era problemática pois nunca poderia se afastar de suas roupas - que escondia ao amanhecer - pelo perigo de anoitecer pelado e assustar quem passasse por lá. Para se disfarçar, e por medo de acabar constituindo a refeição de algum camponês faminto, dera um jeito de se imiscuir num galinheiro durante o dia. Com isto, além da concorrência com os outros galos, tinha que cobrir quatro, cinco galinhas diariamente sob pena de ser sacrificado como inútil . O resultado era que, com o advento da noite, não tinha mais forças para fazer o mesmo sob a forma humana.

Pois bem, neste dia o príncipe-galo arriscara-se a fugir do galinheiro e, olhando para cima, viu a pobre Rapunzel pela qual imediatamente se apaixonou. Tentou alçar vôo para alcançar a janela mas suas curtas asas evidentemente não se prestavam a isto. Finalmente, num último sobregalináceo esforço, tomou impulso e, batendo vigorosamente suas atrofiadas asas, conseguiu alcançar uma ponta do cabelo de Rapunzel por onde subiu, surpreendendo a moça.

A princípio ela não acreditou na história que ele contou, mas a noite caiu rapidamente e, de repente,ela se viu diante de um mancebo pelado e, melhor, com tesão. Profundamente emocionada, entregou-se à tão-aguardada oportunidade de virar mulher. Transaram a noite toda e não foi sem muita dificuldade que, ao amanhecer, o esgotado príncipe, novamente transformado em galo, deixou-se cair para o chão.

A cena se repetiu nos dias seguintes até que, cansado de sua dupla função de garanhão, o rapaz decidiu que chegara o momento de planejar a fuga da amada. Num entardecer combinado, como galo, subiu levando uma lima para serrar as grades da janela e uma tesoura para cortar o cabelo com o qual trançariam uma corda. Para agüentar o peso dos dois, resolveram esperar o amanhecer para que a jovem pudesse levar seu salvador sob seu “alter ego”, mais leve, numa sacola. Mas como o cabelo ainda era curto demais precisaram improvisar um para quedas com a saia dela e flutuar para baixo.

Entretanto, este rebuliço todo alertou o anão que, percebendo a fuga, começou a perseguí-los. Na precipitação, a sacola caiu e o anão , vislumbrando um bom jantar, desistiu da perseguição e agarrou o galo, deixando a moça fugir.

Anos depois, Rapunzel virou cabeleireira, casou e teve filhos, e acabou esquecendo seu querido príncipe.

Moral da história: Mais vale um galo na panela do que uma galinha na cama.