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1 - ESCRITORES DO PINHEIROS de A a J |
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Alba Christina - A FESTA DO DIA SEGUINTE
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junho, 2005
Não chegava a ser febre, mas a indisposição da gripe a fazia encostar no sofá, e vagar o pensamento, sem fazer nada, sem se fixar em nada. As personagens iam e vinham, sem coesão lógica, sem ligação obrigatória. Simplesmente apareciam. A menina do vizinho brincando de amarelinha, a tia fazendo chá, a mãe arrumando a gaveta. Tudo ao mesmo tempo. Daí em diante, o sol cobria a praia, e as ondas do mar lhe molhavam os pés. Ah, se pudesse ter ali o namorado, ele estava longe. Nem era mais namorado, mas ela não se deu conta. Continuou, funcionando como se tudo estivesse bem. Também, a amigunha do peito tinha um namorado tão bom, que tinha um barco e saía com ela por aqueles mares azuis, perseguindo outros barcos, vivendo nas nuvens.
Não. Ela não podia acreditar que estivesse só. Só no momento em que ele disse definitivamente que o deixasse em paz. Ela nem se deu conta. O choque foi tal, que introjetou o trauma. Agora o trauma voltava. Dessa vez numa festa em que todos dançavam, bebiam, estavam felizes. E ela então, reviveu toda a dor do momento que havia escondido anos e anos....
Mas por que isso agora? a garganta estava doendo, incomodando, mas o tempo mostrava outras cenas boas. o dia da entrega dos premios, os amigos juntos cumprimentando, o sorriso do companheiro, tudo rápido, passando por ela sem se deter. Parecia um trem correndo pela estrada, dando uma parada na estação, e continuando..
Ela não sabia mais quem era. Os desapontamentos da infância, as ilusões da juventude, as satisfações da idade adulta... Tudo se misturava.
A febre subiu um pouquinho, e com isso ela dormiu. Sonhou. A velha vitrola tocava um disco que ela gostava, e havia se tornado uma chatice para a família. Besteira.... Hoje em dia ninguém mais se preocupava com isso, que tocassem rock, musica sertaneja, o que fosse. No volume que fosse. Os ouvidos que se danem.
Na gaveta de um móvel de criança havia uma fantasia. Muito feia. Muito louca. Foi ela mesma que costurou com roupas e retalhos velhos. Mas ela gostou. A amiguinha também. O importante era ser criança, curtir o momento. No outro armário, uma porção de roupas novas, bonitas, atuais. Ah, se tivesse tido sempre a alegria de viver o momento presente... Mas não, porque naquela formatura, não teve o par que desejava para dançar a valsa. Voltou para casa frustrada, doente, nem conseguiu ir à festa do dia seguinte... Essa estava sendo esperada até hoje. Até hoje esperava a festa. Um dia ela viria. Com champanha, com música, com risos, muita amizade, muito louvor a tudo que ela gostava, e o passado tinha negado. Aquela festa que ela esperou e não veio, quando moça. Aquele namorado que a rejeitou, aquelas flores que ninguém lhe mandou. Ela estaria pronta, esperando como anfitriã zelosa. Ganharia o mundo, estaria satisfeita.
Tudo isso ela se dizia, quando ouviu uma voz.
-Melhorou? Quer tomar um chá?
Ela mal respondeu, virou para o lado, encostou na almofada, e continuou sonhando.
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