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1 - ESCRITORES DO PINHEIROS de A a J

Irto de Souza - CAFÉ E ARTEMÍSIA


Artemísia foi direta e incisiva.
¬Café? Barzinho? Nem morta! Nem pensar! Então era só o que faltava: eu empregar o dinheirinho da minha pobre mãe, para abrir uma colônia de férias para os vagabundos dos seus amigos. Ora essa, agora! Nem pensar. E nem sonhar isso de novo, ouviu bem?

Florindo ouviu bem. Ouviu e engoliu. Olhou a mulher meio de soslaio, cabeça baixa, como os cachorros quando se grita com eles. “Foi só uma idéia”, pensou. E pensou baixinho, com medo de que a mulher pudesse ter ouvido o pensamento proibido.

Artemísia arrumou a saia e a blusa, descompostas pela ira provocada pelas infelizes sugestões do marido. Virou-se em direção à porta e começou a andar. ¬Vou ver uns negócios, falou de costas. Contra o assoalho de madeira, os saltos dos sapatos foram batendo ritmadamente, cantando uma sugestiva canção para que a matriarca se mandasse para o inferno: “Peque, peque...peque,peque... peque... Florindo, ao ouvir a porta ser fechada, suspirou aliviado.

A lojinha dera certo. Vendiam linhas e botões, panos e roupas. As freguesas compravam e punham em dia as novidades. Se não tivessem, inventavam. Algumas traziam peças prontas que a loja punha em oferta. Era sempre algum dinheiro a mais. A mulher comandava os lances principais o marido atendia o balcão. Sem grandes lances, que isso não era nem o feitio nem intenção da proprietária, a lojinha seguia segura e a vida parecia deslizar num lago manso e azul. Mas, não se sabe porque, a senhora morreu. Nunca adoecera, tinha saúde de ferro! E, no entanto, morreu. A lojinha foi a que sentiu menos. Acostumada por dez anos com o trajeto determinado pela dona, continuou fazendo o de costume. Seu Flô, outra propriedade da senhora, também se amoldara ao projeto e repetir nunca lhe causou embaraço. A senhora morrera e a vida iria continuar: bem do jeito que ela queria!

Naquela noite Seu Flô se recolhera mais cedo. Fechada a loja, meteu-se logo em seu quartinho, aos fundos da casa. Para ele, agora sozinho, não necessitava mais. E a casa onde morou, tendo sido alugada, ainda rendia mais algum dinheiro. A mulher, certamente, teria aprovado a decisão do eremita. Mas Seu Flô não estava bem... Sentia-se um pouco cansado não fizera, no trabalho, mais do que o de costume, e no entanto estava cansado. Agora, na quietude do quartinho, percebeu que fazia algum esforço para respirar. Engraçado, refletiu ele, nunca tive de pensar para fazer isso era como varrer a calçada logo cedo ou correr ao chamado da patroa tudo automático mas, nesse momento, estou cansado e preciso pensar o que fazer para poder respirar! Deitou-se. Nada adiantou. Andou um pouco e foi apanhar mais um cobertor, que a noite esfriara. Estendeu-o sobre a cama. “Se dormir, isso passa e amanhã estarei bom”, foi o que imaginou e enfiou-se debaixo das cobertas. Ouviu o relógio da loja bater oito vezes. A respiração melhorara um pouco. A cama, aquecida, facilitaria o sono. O relógio bateu nove vezes Seu Flô, ainda acordado. Começou a pensar na mulher morta, na loja, nos amigos que também já tinham ido e uma tristeza muito grande desceu sobre ele. “O que faço ainda aqui?” perguntou. Mas o quarto silencioso continuou calado e nenhuma resposta teve da sua indagação. Virou-se de um lado e depois de outro, cuidando para não descobrir-se, que sentia os pés e mãos bastante frios. A respiração voltara a piorar. Dez pancadas. Os olhos de Seu Flô ardiam um pouco. Finalmente começou a adormecer!

O quarto, mergulhado no silêncio e na escuridão, não prenunciava boas coisas. A respiração tornara-se ofegante. Foi o que o acordou. Reparou então em vários pontos de luz que vinham da janela. “Que estranho, nunca tinha visto isso!”, pensou, enquanto seu peito chiava. Começou também a ouvir sinos. Achou que devia ver de perto aquela luz levantou e foi para os lados da janela. Quando abriu as cortinas, de um golpe, uma golfada de luz brilhante e intensa arremessou-o para trás. Caiu de costas. Sentiu uma dor terrível no peito e a luz tornou-se ainda mais forte e refulgente. No momento seguinte a dor passara. Pode erguer-se. Andou em direção à luz. Reparou que andava com facilidade, com leveza, era como se não tivesse peso, que pudesse flutuar. Ao chegar à janela, sentiu-se delicadamente puxado para fora e para cima. Estava envolto pela luz radiante. Deixou-se levar. Queria saber o que iria dar isso.
Chegou-lhe um perfume de flores noturnas e uma aragem fresca, que pareciam indicar-lhe um caminho. Foi por aí. Era o caminho que o levava para sua velha casa, agora o reconhecia! A luz forte abrandara e o perfume já não era tão intenso. Perdia para outro aroma. Era um cheiro adocicado: era café! A luz mudara para um tom azulado.
Ao virar a esquina viu a sua casa, toda envolta em azul, na luz que emanava de um grande anúncio luminoso: CAFÉ DA ARTEMÍSIA. Custava-lhe crer que estivesse vendo isso. E foi só quando a porta do café se abriu,