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A PEQUENA HINDU ©

. A PEQUENA HINDU © Maio / 2003- Cármen Rocha

tema: UM CONTO DE OUTROS POVOS

... A menina Preeti alarga o olhar para Loa-Majra...

Contava-se pela redondeza a lenda da pequenina Preeti. De tez azeitonada e olhos escuros, morava numa aldeia simples da longínqua Índia. Seus pais eram de uma pobreza insuspeita.

No final da rua, arenosa e alargada, em frente a casa da família, ela pequenina e descalça, mal corria para todos os lados, machucando os pezinhos delicados, como se fora quase feliz. E atrás daqueles cílios grandes e profundos adivinhava-se algo perdido no tempo. E nestes momentos ficava sentadinha à beira das grandes pedras, ao lado da casa, semi-olhando lá para baixo, em devaneio, para determinado ponto ao longe, muito longe, além das árvores milenares. Era uma atitude muito pouco compreendida pela família, uma atitude tão severa e madura para uma garotinha de um ano e poucos meses.

O pai Tek Ram, dissera certa vez que logo que aprendeu a falar ela afirmara ao irmão “essa casa é sua, não é minha” e “esses são os seus pais, não os meus”. Isso causava espanto e até um certo temor em todos os que tomassem conhecimento dessas palavras.

Alguns meses mais tarde, repentinamente, voltara-se para o irmão: “Você não tem uma irmã, eu tenho quatro.” As pessoas estranhavam, mas depois passaram a não mais prestar atenção e se afastavam. Preeti se sentia muito só. Seu irmão tinha um grande carinho por ela, sempre surpreendido pela sua tristeza. Seus pais a estranhavam e não conseguiam amá-la.

Certa vez dissera chamar-se Sheila, que queria ir para sua casa na cidade de Loa-Majra, onde morava. Eles ignoraram. Aos quatro anos, Preeti pediu ao vizinho para levá-la, pois ele tinha reconhecido que aquele lugar que ela tanto olhava era certamente na direção da cidade de Loa-Majra.

Uma sua amiga conhecia o local e certa família que pôde confirmar tudo. Levou a notícia ao lugar referido e o pai da menina morta veio até ela e Preeti o reconheceu como seu. Como várias pessoas tinham vindo a casa de Tek Ram, ela reconheceu também outros membros da cidade.

Preeti dissera, há algum tempo, sobre sua própria morte: ”cai do alto e morri”. Em outra ocasião, olhando para a mãe: “Eu estava sentada à beira do rio. Estava chorando. Não conseguia achar uma mamãe, então, vim para você”. Os fatos foram confirmados por algumas pessoas: ela morrera atropelada, e fôra jogada a mais de três metros de altura, caiu e morreu. Sheila tinha se machucado nos pés, e Preeti apresentava marcas de nascença nos mesmos lugares.

Apesar de certos acontecimentos terem dado razão às falas de Preeti ou Sheila, a situação mudou pouco. Seus olhos demonstravam imensa tristeza. Sua mãe tentava compensá-la, mas entre elas havia um desencontro. Em casa, as coisas continuavam difíceis. Vivia em extrema pobreza. Seus vestidos eram puídos e seus pés ainda não andavam calçados para as brincadeiras de rua.

E o tempo passou. Entrou na idade escolar. Os dois irmãos, de mãos dadas, andavam por algumas quadras perto de sua casa, e desciam pelas ruas centrais de pequeno comércio. Ele procurava familiarizar a pequena Preeti com o caminho da escola. Sempre a protegendo, pois adivinhava sua fragilidade.

Bem, os vários problemas iam sendo superados. Conseguiu matricular-se nessa escola mais próxima de sua casa. O maior impedimento seria as roupas. Seu primeiro sapato de passeio, com pequeno laço, não agüentaria muito mais tempo. Como ir descalça para a escola? Seu irmão matriculou-se de manhã e na saída corria a seu encontro e passava o seu sapato para ela, que caminhava calçada para a escola. Humilhada e triste, quase não levantava o olhar, pois o calçado era maior que seu pé. As coisas continuavam ruins para ela.

No início o irmão a acompanhava, dando-lhe a mão. Mas no meio do caminho, impelido por grande desejo, sempre a deixava para traz, pois descalço mesmo, corria como o vento para chegar em primeiro lugar, antes dos outros meninos. Era sua paixão: as corridas intermináveis pela vizinhança, como se sempre precisasse provar sua agilidade.

Ela, agora familiarizada, fazia só, o resto do caminho para a escola, enroscando-se aqui e ali por detrás de pequenas vendas e lojas. Seus grandes e redondos olhos eram sugados por lindos objetos, sapatos coloridos, bonecas enroladas em pano, flores brilhantes que ela jamais possuiria.

Um dia ouve-se dizer de uma corrida de meninos, pelas ruas e vielas. A premiação seria um par de sapatos! Seu irmão não precisaria treinar, ele vivia ganhando. Corre, ganha o prêmio e pede um sapato feminino que oferece à irmã. Ela recebe o prêmio encantada, e olha para os pés do irmão. Seus sapatos, pelo uso duplo, já estavam rotos. Agora seria sua vez de andar descalço. Sente um carinho enorme por ele. Não, não olharia mais para Loa-Majra. Ele era seu irmão!