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1 - ESCRITORES DO PINHEIROS de A a J

Bete Marun - ESCADARIA

A escada de mármore branco em forma semicircular une o pavimento dos quartos aos cômodos sociais. A luz do sol que a ilumina é colorida pelos vitrais que desenham vasos com flores. É certo que o vidro não pode reproduzir a leveza das flores naturais, mas as que a luz desenha nos degraus da escadaria parecem vivas.

Tudo isto pertence a uma casa que fica não sei onde e da qual não importa nem o tamanho nem a imponência. A escadaria é o local mais bonito dela e muitas vezes Mariana sobe e desce seus degraus levando na imaginação as cenas que gostaria de viver.

Sobe pulando os degraus como uma menina inquieta e desce com porte de rainha olhando de cima os que supostamente a esperam. Vai e vem cada vez mais concentrada em sua brincadeira. A subida exige esforço físico e não há como manter o porte elegante, mas para descer, graciosos movimentos de todo o corpo. Imagina o saguão cheio de pessoas a aplaudi-la. Está com um belo vestido longo e desce lentamente apoiando-se levemente no corrimão dourado. Lá em baixo está o príncipe encantado?

Nem nos quartos do andar superior, nem nas salas majestosamente mobiliadas ela consegue sentir-se tão bem, tão feliz quanto na escadaria. Se olhar de baixo para cima uma cor rósea ilumina o último degrau branco. Se olhar de cima para baixo vê o verde no primeiro e mais arredondado deles.

Em cima dorme-se embaixo come-se e ela não quer nenhuma das duas coisas. Quer continuar subindo e descendo a escadaria.

Pare com isso, adverte a mãe irritada.

Mariana não responde, deseja chegar lá em cima. Não se cansa de admirar o colorido que transpassa o vitrô. Brinca de casinha nos degraus. Coloca a cama de boneca bem no canto para que a luz azul mais escura proteja o sono de sua filha. O fogãozinho e as panelinhas podem ficar no degrau mais abaixo bem iluminado. O vizinho mora no degrau de cima ou no de baixo, tanto faz, contanto que a luz vermelha incida sobre ele.

Não pode brincar de casinha na escada, assim você atrapalha todo mundo, observa a avó.

Mariana também não dá atenção a ela e afasta o carrinho da boneca para que a velha consiga descer. Estranho e gostoso o prazer que sente em colocar seus brinquedos nos degraus.

Com tanto espaço lá fora por que você não vai brincar no quintal?

Mariana não atende ao apelo. O espaço lá fora é grande. Um jardim bem cuidado com roseiras rodeadas a azáleas. O quintal com árvores centenárias que exigem respeito e admiração. Não quer invadir o espaço das flores nem das majestosas árvores frutíferas. Prefere a escadaria que, com sua frieza marmórea, perde um pouco de calor colorido. Talvez mais que tudo seja a vontade de contestar os espaços determinados. Quer viver sua fantasia infantil num lugar que não é próprio, que não foi feito para brincar, mas que exerce sobre ela o fascínio colorido das guirlandas do vitrô iluminadas pela luz do sol.